Contra o dia burocrático e o modo funcionário de viver

2.3.07

1.3.07

A fatal atracção

A convite da Fernanda Câncio, escrevi para o Cinco Dias um texto de 2.ª feira, a Magnífica Reitora. Através de um episódio – a nomeação de Drew Gilpin Faus, a Magnífica Reitora de Harvard – utilizei a novidade do acontecimento e as circunstâncias actuais de um conjunto de personalidades femininas – que se localizam no núcleo do poder por excelência: a política – para questionar a relevância dos novos rostos femininos nos Estados Unidos, da Senhora Royal em França num eixo franco-germânico com Angela Merkel, para a condição feminina no mundo que (já não) se diz dos homens.
Depressa cheguei ao ponto, e por acaso pela pena de Stuart Mill e o seu "A Sujeição das Mulheres": a “regra da supremacia” vigora ainda, na prática, e como tal continua a ser “um dos principais obstáculos ao desenvolvimento humano”. Com a agravante, a que Mill já não assistiu, de já termos experimentado sistemas de menor sujeição, maior participação, e consequente, mas relativa, “maximização do bem-estar social e da felicidade”. As citações são, aqui, de Stuart Mill, que na sua época e neste estrito contexto, era o pensador da excepção. E que era, também, contrário à ideia de poder, é certo. Talvez por isso mesmo, tenha condenado a ideia de submissão da mulher ao homem, a proibição do divórcio baseado numa pura diferença de génios, via no casamento uma parceria, criticava a ausência de reconhecimento de autonomia e direitos financeiros ao género feminino. A defesa deste argumentário por um liberal e utilitarista do século XIX é, concedo, contra-o-poder.
A Magnífica Reitora – não a Senhora Professora de História, que inicie magnificamente o seu mandato em 1 de Julho, deixemos a Professora Faus – conduziu o debate para dois rumos, seguidos e perseguidos numa extensa caixa de comentários:
1) São as mulheres que se colocam na posição de espectadoras – seja de blogues, seja da política, de comentar, exteriorizar análises – e se sujeitam a uma dada condição feminina? Ou seja, concedem e não enfretam “A Sujeição das Mulheres”, já criticada no século XIX por Mill?
2) A conversa passou, e parou, inevitavelmente, nas quotas e na conjugação deste método de pedagogia anti-inércia feminina e anti-obstáculo masculino, com a questão das preferências de cada género, mas sobretudo de cada indivíduo. E destaca-se, por provocação de um comentador, a dúvida: o poder atrairá mais os homens? Só posso admitir que o poder seja sobretudo sedutor ao Homem, e menos à Mulher, se a razão pura for a vaidade. Se colocármos o apego masculino à poderosa sensação de controlo (quase) absoluto no plano da vaidade, tão só.
O poder será sempre vaidade, e a política – e a academia, e outras instituições, palcos, foruns – trará sempre poder. Mas estará sempre presente, também, uma causa. Artificial, natural, que comande a acção total ou parcialmente. Comissão ou omissão, premeditadamente. Mudar pouco ou provocar revoluções. O poder será sempre vaidade, e a política trará sempre poder. Mas a atracção pelo poder faz-se combinada de vaidade e causa(s). A intensidade dessa atracção resultará diferente em cada indivíduo, nas suas circunstâncias.
Repito, apenas aceito a ideia de que o poder atrai mais os homens, baseada que seja esta afirmação na vaidade pura. Ponto final. E aceito que a atracção feminina por esferas de poder seja menor – ou menos visível – porque “A Sujeição das Mulheres” foi o sistema secularmente vigente, e porque não só as mulheres condicionam as suas preferências, conscientemente, àquilo que consideram possibilidades, como, quando preferem, enfrentam uma desigualdade inicial no percurso, face ao homem.
A responsabilidade? Do sistema, da mentalidade social comum – do que foi, é, vai sendo e, parece, continuará a ser –, da reacção dos actores e das indicações do realizador. Só vê este filme quem manifesta preferência. Diversidade preferêncial existirá sempre, e as motivações individuais são variáveis.
Vejo-me a convocar outra vez Stuart Mill, que nem é especial referência na matéria, mas que se opunha, nos domínios da psique, à visão mecanisista, da mente passiva, reactiva a estímulos externos. As quotas são necessárias, úteis, um estímulo externo mas que se pretende paralelo à revelação de preferências femininas pelo supremo cálice do poder. Mill defendia uma mente activa na associação de ideias. A acção mista, sem inércia ou obstáculo dos géneros, impede a edição futura de “A Sujeição dos Homens”, por um qualquer descendente do filósofo-economista. Enfim, igualdade distributiva de direitos e responsabilidades, pressupondo a tentativa de maximizar a possibilidade de participar, pegando na deixa de um outro comentador. Para começarmos a ver outras fotografias!

P.S. A compreensão de "A fatal atracção" reclama mesmo a leitura da "Magnífica Reitora".

26.2.07

Hoje no Cinco Dias

No dia e a convite da Fernanda Câncio, estou hoje no Cinco Dias, com a Magnífica Reitora.

Hollywood, 79.º

Helen Mirren foi mesmo A Rainha, e ganhou o Óscar para a Melhor Actriz Principal. Forest Whitaker, também algo majestático, o de Melhor Actor Principal em O Último Rei da Escócia. No surprises, Globos de Ouro remix. Também não foi surpreendente ver a Academia premiar Martin Scorcese, ao fim de tantos remates (passará agora a «maldição» para o seu dilecto actor, Leonardo DiCaprio?). E se Scorcese é o Melhor Realizador do Ano, o seu The Departed só podia ser o Melhor Filme.
Eu torci pelo Babel. E que levasse, ao menos, o Óscar para a Melhor Actriz Secundária. Bem sei que, fosse o júri português, o resultado seria exactamente o desta madrugada. Ficou-se pela Melhor Banda Sonora Original (para mim a melhor banda sonora, se bem que não original, é a de Marie Antoinette, que levou o Óscar de Melhor Guarda Roupa - óbvio - e podia bem levar o de Melhor Fotografia... mas estou a ser tendenciosa, porque ainda não vi O Labirinto do Fauno...).
Enfim, eu também não sou crítica de cinema! Venha a 80.ª edição.

Linhas alheias

Leituras de hoje, sobre o Portugal português e a Itália de sempre:

Pedro Magalhães: ... banal mas nem por isso suficientemente lembrado, é o facto de as nossas «secularização» e «modernização» empalidecerem em comparação com o que se passa nos países da nossa área geocultural. Portugal permanece um dos países com maiores níveis de religiosidade da Europa, a par da Polónia, a Itália ou a Irlanda...
(Religião, valores e política, Público)

Eric le Boucher: De la démission de Romano Prodi de la présidence du conseil italien cette semaine que de leçons à tirer pourtant ! Sur la fragilité des alliances, n'est-ce pas M. Bayrou ?, mais aussi sur les réformes et les façons de les conduire. L'Italie est en avance sur la France et pour nos ambitieux candidats il eut été judicieux d'y aller voir. (Du chianti pour la croissance, Le Monde)

25.2.07

Mont-Pélerin Society

Desde o início do ano novo, ante o momento referendário e o vocabulário próprio que nesse contexto foi sendo utilizado, o liberalismo tem estado na escrita de todos. Saíndo da cabeça de outros tantos, por onde andará com constância. De facto, a referência à «liberalização» sobreposta nas vozes de muitos defensores do Não e teoricamente implicita na questão do referendo - a prática, o resultado, e o que se segue, provam que de «despenalização» se tratava - trouxe um novo ânimo ao tema dos liberalismos.
No inicío da semana, João Marques de Almeida levantava a questão com pertinência, falando de incoerências interessantes: serão os de direita economicamente (neo)liberais, e conservadores nos costumes e na moral? E serão os de esquerda estatistas do ponto de vista económico, mas defensores do liberalismo moral e social?
Na minha perspectiva, incoerente seria simplificar esta geografia de liberalismos cruzados, e fazer da direita aquilo e da esquerda aquele outro.
Que liberal existirá em alguém que se veja representado na direita?
E que liberal existe no indivíduo que se considera de esquerda?
É que, a menos que abandonemos o campo de alguma moderação, liberais serão ambos, e muitos.
A sede mais contemporânea do (neo)liberalismo económico está nos Estados Unidos, nos finais da Segunda Guerra Mundial, na crença do mercado como mecanismo natural, eficiente e neutro na afectação de recursos escassos, um regulador automático da economia, terras do homo economicus.
Enquanto ideia política, o liberalismo contemporâneo é forjado por Popper e Von Hayek e outros intelectuais do segundo pós-Guerra, nas famosas reuniões da Mont-Pélerin Society: a liberdade individual vem antes da igualdade social. A concepção ali desenhada, ao longo de demoradas tertulias, corresponde a uma visão profundamente individualista do Homem, concebido como entidade por si só, que actua em função do seu próprio sistema de valores e de estratégias individuais para a concretização dos seus objectivos, ajustando-se apenas aos ditames da concorrência.
Ainda assim, o revisionismo de Popper, Hayek e seus pares, traduz um pensamento liberal moderado, na medida em que aceita a intervenção do Estado onde não chega o mercado, em nome da protecção de valores de igualdade social – como exemplo de área de intervenção estadual, pela necessidade de satisfação social igualitária, apontava Hayek, na sua Rota da Servidão de 1944, os cuidados de saúde.
Para início de uma conversa cuja maior característica será a infinitude, é este o meu ponto de partida, assumindo o meu liberalismo moderado. Talvez lhe adicione uma moderação distinta da proposta da Mont-Pélerin Society.
A ele voltarei, fica a promessa. É que hoje é noite de Óscares!

Linhas alheias

Leituras de hoje, percorrendo com lucidez as duas semanas entre o referendo e o aconselhamento:

José Lamego: Em relação ao aconselhamento obrigatório como requisito procedimental de não punibilidade e, sobretudo, em relação aos fins e contornos do sistema de aconselhamento é que se tem produzido mais "ruído" no debate público subsequente a 11 de Fevereiro. No elenco das "boas práticas" de regulamentação vigentes nos países da União Europeia, tem havido arrimo frequente ao modelo de aconselhamento da lei alemã. Um conjunto de razões desaconselha, no meu entender, a transposição pura e simples do modelo alemão (...) (Que aconselhamento para a IVG? , Diário de Notícias).

Anselmo Borges: O European Social Survey veio dizer que 96,7% dos portugueses pertencem à religião católica. Isto também significa que forte percentagem do "sim" pertence a católicos. No meu entendimento, não havia incompatibilidade entre ser-se católico e a favor da despenalização. Aliás, no quadro do "não", foi factor de confusão querer simultaneamente a criminalização e a despenalização. (Depois do referendo, o quê? , Diário de Notícias).

24.2.07

Fosse outro o sentido da notícia...

Limpeza coerciva em Lisboa
(Expresso)

Trata-se, apenas, da coordenação, pelo próprio Carmona Rodrigues, dos trabalhos de limpeza de cartazes publicitários colocados ilegalmente na via pública. Ecológico e louvável. Mas o sentido literal do título tem potencial para provocar escassos segundos de jubilo.

Na calma de outra urbe, respirava-se melhor o fim-de-semana


A catalã Barcelona

23.2.07

Aquela casa que continua a não vir abaixo

E eu não sei porquê.

Relatório indicia crimes financeiros na Gebalis
O documento elaborado por uma comissão nomeada pelo Vereador da Habitação Social, Lipari Pinto (...) indicia crimes de natureza informática e financeira.
Diário de Notícias

Investimentos de milhões parados numa Lisboa estagnada
O Peso de uma Câmara endividada

A crise agudiza-se na capital do país. Uma sucessão de epísódios põe a nú o caos crescente na gestão da cidade. O resultado é uma Câmara parada, sem estratégia nem objectivos (...) O retrato financeiro da autarquia apresenta-se com muitos milhões por pagar (...)
Semanário Económico

Sá Fernandes suspeita de rede de tráfico de influências na Gebalis
Fontão de Carvalho pediu desculpa por ter escondido que era arguido

Público

Carmona Rodrigues desautoriza vereador no caso Gebalis
Despacho do Presidente ordena audição dos responsáveis acusados no relatório de Lipari Pinto.
Diário Económico

A morte saiu à rua num dia assim...

...e levou Zeca Afonso. Dia 23 de Fevereiro de 1987, em Setúbal, há 20 anos, o cantor morreu.

22.2.07

Todos os Homens


Para um amigo especial, porque hoje este céu é um tecto falso do mundo, cinzento, mas merece ser azul...

Yet each man kills the thing he loves
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!


Oscar Wilde
The Ballad Of Reading Gaol

Linhas alheias

Leituras de hoje, em continua revisitação do(s) liberalismo(s)e da liberdade real:

João Cardoso Rosas: Parece-me que estas contradições – as da direita e as da esquerda – só podem ser superadas quando abandonarmos a vontade de traduzir politicamente as ideologias que lhes subjazem, ou seja, tanto o relativismo como o dogmatismo. Defender a liberdade individual contra o dogmatismo e defender o mundo livre contra o relativismo implica adoptar uma atitude falibilista diante da verdade empírica ou moral. Julgo que é esta a atitude liberal por excelência. Não estou a dizer que é a única que podemos encontrar, historicamente, no pensamento liberal. Mas é certamente aquela que melhor nos permite escapar às contradições aqui apontadas à esquerda e à direita. (Liberdade e mundo livre, Diário Económico).

Rui Tavares: Esta versatilidade permitiu-lhe sempre [a Alberto João Martins] navegar n apolítica nacional, com algum risco é certo, mas dividendos incomparáveis. Entalou os políticos nacionais e comprou o consenso dos madeirenses. Governou uma região como quis, com os recursos que quis. Nenhum outro político português se pode gabar do mesmo. Subitamente tudo mudou. Sócrates foi eleito não apenas com uma maioria abslouta, mas com uma maioria absoluta que dispensa os votos madeirenses. Não só Sócrates não precisava de Alberto João, como nem precisava de se preocupar com a eventualidade de vir a precisar. Foi ai que a arte da intimidação (...) deixou de funcionar. (A política da intimidação, Público).

21.2.07

Clube do Chiado

O Clube do Chiado convida a ouvir Luís Amado falar sobre A Agenda de Política Externa na Presidência Portuguesa da União Europeia.
Apresentado por Bernardino Gomes, no Grémio Literário, dia 22, às 20h00.

Estes romanos são loucos...


... já há muito diziam os gauleses. Romano Prodi demitiu-se ao ver chumbada uma moção de apoio à política externa do Governo:
Apesar de não ser constitucionalmente obrigado a demitir-se, Prodi ficou numa situação delicada, depois do ministro dos Negócios Estrangeiros ter defendido que o Executivo deveria apresentar a demissão em caso de derrota na votação de hoje.
Numa primeira reacção, um dos principais dirigentes da coligação da Oliveira, que congrega os partidos que apoiam o Executivo, anunciou que a formação "está disposta a renovar a total confiança em Prodi". Resta saber se esta orientação será seguida pelas formações mais radicais.
(Público).
Permanece o célebre receio de que o céu lhe caia sobre as cabeças.

Estado de necessidade I

Declarei que aqui voltaria apenas em estado de necessidade. Ei-lo.
A vitória não é delas (as feministas radicais), e pertença dos moderados (Pedro Lomba, Vício de Forma).
A derrota não foi da igreja, porque não é uma vitória muito clara quando houve tantas abstenções (Cardeal Saraiva Martins, SOL).
E o referendo, é de quem?
A Lei, essa, julgo que será de todos.

Linha alheias

Leituras de hoje, sobre voto e estratégia:

Teresa de Sousa: Qual é a verdade de Ségolène: a da primeira etapa, das suas intuições, ou a do seu programa? Le Boucher admite que a candidata não pode avançar sozinha no seio de um partido voluntariamente “fechado na esterilidade intelectual». Muitos analistas explicam também a sua viragem à esquerda com a necessidade de fixar eleitores de PS e, sobretudo, de secar a habitual miríade de candidatos de protesto (do PCF aos trotskistas, passando pelos altermundialistas) (…) A questão é saber se Ségolène consegue seguir esta via na primeira volta sem alienar o capital de simpatia que conquistou muito para lá do eleitorado fiel da esquerda. Se há uma explicação para a surpreendente entrada em cena de François Bayriu, que já passou Le Pen e que parece disposto a transformar um duelo a dois num combate a três, ela pode estar aqui. (O branco e o vermelho de Ségolène Royal, Público).

Tiago Mendes: A motivação instrumental determina que cada eleitor pondere votar [no jogo "Os Grandes Portugueses"] expressiva ou estrategicamente levando em conta: a) as preferências relativas entre o seu candidato preferido e os dois candidatos que considere terem mais hipóteses de ganhar; b) a probabilidade relativa do seu voto ser decisivo para a vitória de cada um deles. As “expectativas” quanto aos dois candidatos mais populares formam-se a partir da informação disponível. No caso, “todos sabem que todos sabem” quem eles são: Cunhal e Salazar. Este “conhecimento comum” torna o voto útil muito provável: votar noutro candidato seria um desperdício. (Do voto estratégico, Diário Económico).

A paternidade referendária

Quando questionado sobre se "A figura do referendo ainda faz sentido?", Marcelo Rebelo de Sousa, sem hesitações ou discordâncias quanto ao ponto de interrogação, é peremptório: a resposta é rápida, directa e sucinta: claro. Não só porque este referendo teve uma participação muito superior à do anterior sobre a mesma matéria, como porque os três referendos foram decisivos nos diversos momentos em que se realizaram em termos políticos quanto às matérias a que se reportaram (Eis a questão, NS, 17 de Fevereiro 2007).
Que as palavras do pai reconhecido inspirem todos quantos sobre os netos se debruçam.

20.2.07

Linhas alheias

Leituras de hoje, sobre o segundo aniversário da maioria absoluta do Partido Socialista nas Legislativas de 2005*:

Pedro Santana Lopes: Obviamente que dois anos não é tempo suficiente para qualquer governo conseguir mudar um país. Aliás, nenhum governo, por si só, o consegue. Pode é criar as condições para que a confiança se instale, o investimento reprodutivo aconteça, os empregos surjam, os professores ensinem, os alunos aprendam, os juízes decidam, os trabalhadores produzam. Todos sentindo que vale a pena. Escreve estas linhas quem não o conseguiu... (Um rumo errado, P2).

Octávio Ribeiro: Os grandes encontros com a História fazem-se nas asas do acaso. É preciso estar no lugar certo, na hora certa. Porfiar para que a sorte sorria. O resto fica nas mãos da providência. Divina ou nem por isso. Foi assim que José Sócrates chegou ao poder. Preparou-se. Valorizou o perfil académico. Criou raízes no partido. (Dois anos de Sócrates, Correio da Manhã).

*Assumo que, quanto ao tema, o meu registo de interesses seja desnecessário.

Soprar as velas

Ao meu amigo José Medeiros Ferreira. Parabéns!

Alterações supervenientes

Alberto João Jardim demitiu-se, anunciado de imediato que é (re)candidato às eleições antecipadas, alegando alteração superveniente das circunstâncias*, numa adaptação (minha) do universo linguístico jurídico.
Ouvi ontem Luís Delgado, comentarista da nossa praça, concordar com a atitude: se as condições financeiras são outras e muito distintas, como é que Alberto João poderia cumprir o seu Programa de Governo e oferecer aos madeirenses os resultados (com)prometidos? No directo da demissão, o agora só comentarista António José Teixeira questionou, com pertinência: o regime financeiro a que a Madeira se encontra sujeita é, doravante, o mesmo, quer o Presidente do Governo Regional fique, vá, ganhe e se reeleja.
É verdade. A Lei das Finanças Regionais não sofrerá qualquer alteração por força das manobras eleitorais em curso na Madeira. E na constatação de Luís Delgado residiria grande verdade caso os eleitores madeirenses se propusessem, no cumprimento do seu direito-dever de votar e escolher, comparar as intenções plasmadas no Programa de Governo – que é aprovado pela Assembleia Legislativa Regional, onde têm assento a pluralidade dos seus representantes eleitos, no início do mandato – e as realizações efectivamente cumpridas desse Programa, no final do mandato. Este simples, mas completo, exercício de comparação influenciaria a decisão de voto nas eleições seguintes ou, pelo menos, responsabilizaria e condicionaria o candidato que novamente se apresentasse a eleições.
Mas não é esta a dinâmica racional da demissão de Alberto João Jardim. Carregado da emotividade que lhe conhecemos, alega, tão-somente, alteração superveniente das circunstâncias, quer ser reeleito com outra legitimidade (veremos qual, a passagem do tempo começava a ser-lhe desvantajosa), mas com acento tónico num novo Programa de Governo, adequado ao quadro financeiro? Isso ainda não ouvi dizer. E a comparação de promessas e adesão a modos de selecção por responsabilização política, também não costumo ver feitas pelos madeirenses.

* Se as circunstâncias em que as partes fundaram a decisão de contratar tiverem sofrido uma alteração anormal, tem a parte lesada direito à resolução do contrato, ou à modificação dele segundo juízos de equidade, desde que a exigência das obrigações por ela assumidas afecte gravemente os princípios da boa fé e não esteja coberta pelos próprios riscos do contrato (Código Civil, artigo 437.º, n.º 1)

19.2.07

Pólvora carnavalesca

Alberto João Jardim demite-se, mas sem promessas de não recandidatura. Reza o Público, em última hora: Alberto João Jardim avançou com a demissão – provando que “não está agarrado ao poder” – com o anúncio prévio de que irá recandidatar-se. A origem, não será excessiva a afirmação, está na edição de hoje do Diário da República, que dá à estampa a Lei Orgânica n.º 1/2007 , a nova Lei das Finanças Regionais.
Sem Rei, poderia pensar-se que o entrudo madeirense está parado. Erro. Cheira a pólvora, mas o carnaval continua. Pelo menos até à quarta-feira de cinzas.

Parece-me um espaço onde eu gostaria de estar a respirar


Birling Gap, com vista para as Seven Sisters, Eastbourn

Linha alheias

Leituras de hoje, sobre o luxo e sobre os liberalismos, a última com uma pitada de provocação:

Eduardo Mendoza: Lo superfluo es lo que nos permitió evolucionar a lo que somos: en algún momento tuvimos un plus de inteligencia innecesario para la supervivencia que nos hizo pasar del puro alimentarse, defenderse y reproducirse, a Ferran Adrià, George Bush y el primer sex-simbol que a cada cual le venga a la memoria. El hombre de las cavernas inventó el hacha de sílex para cazar y de inmediato diseñó un collar para su novia, dos actos provenientes de un mismo apremio: la constatación, privativa de los seres humanos, de que todos hemos nacido para morir. Ignorantes de su destino, a los animales les basta con lo necesario. A nosotros, no. Concediéndole sólo lo que la Naturaleza exige, convertiréis en bestia al hombre, clama el rey Lear cuando le recortan drásticamente la jubilación. Qué le vamos a hacer: llevamos en los genes el excedente. Que sirva para lo sublime o para lo trivial es otro asunto. A lo mejor el lujo es la poesía del idiota. (Lujo, El Pais).

João Marques de Almeida: Muitos dos que são mais liberais no plano económico, mostraram que são conservadores na esfera moral e dos comportamentos sociais, defendendo o Não. Por outro lado, muitos dos que se empenharam pela liberdade e pelos direitos das mulheres, quando a discussão passa para a economia, não se cansam de atacar o malvado ”neo-liberalismo”. Reformas económicas liberais, nem ouvi-las. Ou seja, aliam ao seu liberalismo moral e de costumes, um profundo conservadorismo económico e social. À direita, as contradições são históricas. Há uma longa tradição, na direita europeia, de coexistência entre liberalismo económico e conservadorismo social e moral. Para a esquerda, as contradições são mais preocupantes. (Incoerências liberais, Diário Económico).

O pequeno homem


Como diria o meu co-blogger maradona, não é preciso fita métrica para as alturas. De facto, só são precisos aqueles golos de Miccoli. Outra vez o pequeno Miccoli. E cada vez menos Rui Costa...