A convite da Fernanda Câncio, escrevi para o
Cinco Dias um texto de 2.ª feira, a
Magnífica Reitora. Através de um episódio – a nomeação de Drew Gilpin Faus, a
Magnífica Reitora de Harvard – utilizei a novidade do acontecimento e as circunstâncias actuais de um conjunto de personalidades femininas – que se localizam no núcleo do poder por excelência: a política – para questionar a relevância dos novos rostos femininos nos Estados Unidos, da Senhora Royal em França num eixo franco-germânico com Angela Merkel, para a
condição feminina no mundo que (já não) se diz dos homens.
Depressa cheguei ao ponto, e por acaso pela pena de Stuart Mill e o seu "A Sujeição das Mulheres": a “regra da supremacia” vigora ainda, na prática, e como tal continua a ser “um dos principais obstáculos ao desenvolvimento humano”. Com a agravante, a que Mill já não assistiu, de já termos experimentado sistemas de menor sujeição, maior participação, e consequente, mas relativa, “maximização do bem-estar social e da felicidade”. As citações são, aqui, de Stuart Mill, que na sua época e neste estrito contexto, era o pensador da excepção. E que era, também, contrário à ideia de poder, é certo. Talvez por isso mesmo, tenha condenado a ideia de submissão da mulher ao homem, a proibição do divórcio baseado numa pura diferença de génios, via no casamento uma parceria, criticava a ausência de reconhecimento de autonomia e direitos financeiros ao género feminino. A defesa deste argumentário por um liberal e utilitarista do século XIX é, concedo, contra-o-poder.
A
Magnífica Reitora – não a Senhora Professora de História, que inicie magnificamente o seu mandato em 1 de Julho, deixemos a Professora Faus – conduziu o debate para dois rumos, seguidos e perseguidos numa
extensa caixa de comentários:
1) São as mulheres que se colocam na posição de
espectadoras – seja de blogues, seja da política, de comentar, exteriorizar análises – e se sujeitam a uma dada
condição feminina? Ou seja, concedem e não enfretam “A Sujeição das Mulheres”, já criticada no século XIX por Mill?
2) A conversa passou, e parou, inevitavelmente, nas
quotas e na conjugação deste método de pedagogia
anti-inércia feminina e
anti-obstáculo masculino, com a questão das preferências de cada género, mas sobretudo de cada indivíduo. E destaca-se, por provocação de um comentador, a dúvida:
o poder atrairá mais os homens? Só posso admitir que o poder seja sobretudo sedutor ao Homem, e menos à Mulher, se a razão pura for a vaidade. Se colocármos o apego masculino à poderosa sensação de controlo (quase) absoluto no plano da vaidade, tão só.
O poder será sempre vaidade, e a política – e a academia, e outras instituições, palcos, foruns – trará sempre poder. Mas estará sempre presente, também, uma causa. Artificial, natural, que comande a acção total ou parcialmente. Comissão ou omissão, premeditadamente. Mudar pouco ou provocar revoluções. O poder será sempre vaidade, e a política trará sempre poder. Mas a atracção pelo poder faz-se combinada de vaidade e causa(s). A intensidade dessa atracção resultará diferente em cada indivíduo, nas suas circunstâncias.
Repito, apenas aceito a ideia de que o poder atrai mais os homens, baseada que seja esta afirmação na vaidade pura. Ponto final. E aceito que a atracção feminina por esferas de poder seja menor – ou menos visível – porque “A Sujeição das Mulheres” foi o sistema secularmente vigente, e porque não só as mulheres condicionam as suas preferências, conscientemente, àquilo que consideram possibilidades, como, quando preferem, enfrentam uma desigualdade inicial no percurso, face ao homem.
A responsabilidade? Do sistema, da mentalidade social comum – do que foi, é, vai sendo e, parece, continuará a ser –, da reacção dos actores e das indicações do realizador. Só vê este filme quem manifesta preferência. Diversidade preferêncial existirá sempre, e as motivações individuais são variáveis.
Vejo-me a convocar outra vez Stuart Mill, que nem é especial referência na matéria, mas que se opunha, nos domínios da psique, à visão mecanisista, da mente passiva, reactiva a estímulos externos. As quotas são necessárias, úteis, um estímulo externo mas que se pretende paralelo à revelação de preferências femininas pelo supremo cálice do poder. Mill defendia uma mente activa na associação de ideias. A acção mista, sem inércia ou obstáculo dos géneros, impede a edição futura de “A Sujeição dos Homens”, por um qualquer descendente do filósofo-economista. Enfim, igualdade distributiva de direitos e responsabilidades, pressupondo a tentativa de maximizar a possibilidade de participar, pegando na deixa de um outro comentador. Para começarmos a ver outras fotografias!
P.S. A compreensão de "
A fatal atracção" reclama mesmo a leitura da "
Magnífica Reitora".