Contra o dia burocrático e o modo funcionário de viver

21.3.07

Porque hoje é o Dia Mundial da Poesia

Ao rosto vulgar dos dias,
À vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.


«Ao Rosto Vulgar dos Dias»
Alexandre O'Neill

(E porque a nova biografia do poeta merece ser lida)

Três vírgula nove por cento

O número do défice português, em 2006.
Dados do INE.
Anúncio na Assembleia da República, no Debate Mensal, pela voz do Primeiro-Ministro.

Gaullismo enterrado: Chirac apoia Sarkozy, nas eleições de Abril


Portugal-liberal

Linhas alheias, sobre a direita portuguesa e o «incidente» Popular:

Vicente Jorge Silva: Como o destino é terrivelmente cruel para aquele que sonhou transformar o partido do pequeno táxi numa armada invencível da direita portuguesa! Ele que tantas vezes prometeu mão dura contra os fautores da insegurança nas ruas e que deixa os seus fiéis vassalos à rédea solta, como meninos malcriados e traquinas agitando-se freneticamente em tropelias sobre as alcatifas dos salões! Ele que tanto cultivou a afectação snobe e o corte impecável dos lordes britânicos e agora surge como chefe de um pequeno bando de salteadores políticos, desvanecidos pela suprema glória de lhe entregarem directamente as chaves do querido táxi, esse lugar de origem da grande conspiração redentora da direita nacional! (O táxi vazio, Diário de Notícias).

Tiago Mendes: Mas a verdade é que, com ou sem este ou outro Portas, o CDS-PP nunca poderá ser uma alternativa propriamente liberal e eficaz. Na política, conta a “percepção”. E a “marca” CDS-PP tem duas marcas inapagáveis: a defesa intermitente e habitualmente oportunista de políticas liberais na economia; a defesa intransigente e legitimamente beatífica de políticas iliberais nos costumes. Um CDS-PP liberal, só em sonhos. (Alternativas Liberais, Diário Económico).

19.3.07

Da normalidade

Volto eu a este país à beira-mar plantado, apenas para perceber que Portugal é feito de pequenos regressos: Pedro Santana Lopes, que tem andado por , pode afinal voltar para ali (o homem sobre quem Vasco Pulido Valente escreve que «nem dele sabia tomar conta», no Público de 18.03); e de eternas discussões: a democracia interna no CDS-PP viverá de mecanismos representativos ou participativos?

Os super-heróis também morrem?


O Capitão América morreu. Parece que subia umas escadarias, a caminho do Tribunal, algemado, para ser julgado por desobediência face a uma controversa lei - que obriga todos os super-heróis a registar-se junto das autoridades - ideia de um governo autoritário. Não sou fã do Capitão América, mas toda a gente sabe que os super-heróis não morrem. Não são finitos.

Lê-se na morte por bala do Capitão América o retrato simbólico da liberdade eliminada pela paranóia securitária. Mas parece que tudo não passa de uma encenação da indústria dos comics.

Pergunto-me: haverá um Capitão Polónia, morto por insubordinação à "Lei da Purificação Ideológica", recusando-se a garantir o seu certificado de limpeza política?

Bayrou e a fundação da VI República

Linhas alheias, de Teresa de Sousa, ontem, no Público:
...Em Fevereiro, anunciou a fórmula mágica - a "social-economia". Uma versão da economia social de mercado da velha democracia cristã europeia. De Giscard e de Veil, herdou a tradição europeísta da França. Sem ambiguidades. Não hesita em considerar a situação pior do que a que levou à instauração da V República em 1958 e é por isso que quer fundar a VI. Denuncia os "clãs e as máfias" que dominam a política e o Estado, apresentando-se como fiel às suas raízes rurais, antigo professor de província, o oposto das elites parisienses de espírito formatado pelas Grandes Écoles, sentado no velho Pony ou rodeado pelos seus cavalos. Os franceses adoram, mas será suficiente para fazer de Bayrou a escolha possível?...
("O terceiro homem que veio do Centro")

17.3.07

Os gauleses estarão loucos?

Depois de meses de rivalidade integral entre a novel Ségolène Royal e o ex-pupilo de Chirac, Sarkozy, segue-se nova etapa nas Presidenciais Francesas 2007. Acabaram as fotografias de praia, já não se comentam as gaffes de Madame Royal ou a constante inclinação de Sarkozy para a direita. Chegou o terceiro elemento: Francois Bayrou, a roer os calcanhares da candidata do PS nas sondagens, com os dois óbvios presidenciaveis à frente, mas em queda.
Há cinco anos, Le Pen causou consternação quando seguiu Chirac na segunda volta, deixando na primeira volta e com cerca de 15% Lionel Jospin. Diz-se que desde então os franceses mudaram a sua percepção da coisa politica. E que nova percepção é essa? Pouca. Vazia. Reina a desconfianca nos politicos ditos tradicionais, na dicotomia esquerda-direita e seus actores de primeira linha. É Senhora a descrença - o Le Monde pergunta desde o Outono de 2006 se o resultado das presidenciais melhorará a situação da França, e desde então uma média de 36% dos franceses vem respondendo que pouco, e uma média de 17% acha mesmo que nada mudara.
Le Pen era fracturante. E Bayrou? É do centro-monótono. Líder da UDF (Uniao para a Democracia Francesa), que congregou os descontentes com a criação da UMP de Chirac e Sarkozy. De origens humildes, católico, pai de cinco, agricultor e criador de cavalos em part-time, foge ao sistema sem fugir a uma vulgaridade que o aproxima do cidadão comum. É o candidato anti-sistema, mas que tão bem se integra no sistema social.
Nesta sua nova percepção da coisa politica, parecia que os franceses queriam novidade: fosse o programa de proximidade e o género em Ségolène, fosse o confesso conservadorismo senhor da identidade nacional e salpicado de um ar de jovialidade, de Sarkozy. Parece que não. Se nos extremos tudo mudou - Le Pen tem cerca de 13% das intenções de voto, mas demorou a conseguir as 500 assinaturas de autarcas e oficiais públicos; a extrema-esquerda (o saco onde estão comunistas, trotskistas, verdes, altermundialistas) resume-se a 5% - no centro é que está a solução.
A resposta de Sarkozy foi uma nova descaída para a direita, pensando já em segurar os votos que desta vez Le Pen não levará para a segunda volta. Na campanha socialista, Fabius quer sorrir à esquerda - estratégia aparentemente errada, pois só 17% dos franceses dizem confiar na esquerda - e Straus-Khan quer empurrar ao centro. E os franceses insistem, de acordo com muitos indicadores, num Bayrou que venceria qualquer um dos presidenciaveis, na segunda ronda.
Achando, quiçá, que o céu terá já desabado sobre as suas cabeças, será ainda assim caso para perguntar se estes gauleses estarão loucos? Põe-se fim ao gaullismo, e chega um Presidente sem apoio parlamentar? Nao creio que a sentença última das divindades da pequena aldeia irredutivel tenha chegado. Bayrou não vencerá. Mas é ao centro, meus senhores, é na pontaria ao centro que os franceses parecem fazer as suas apostas...

Caça às bruxas polacas

E na Polónia, 700 mil polacos estão obrigados, desde o dia 15 deste mês, a garantir para si um certificado de limpeza politica = certificacao de não colaboracionismo com o regime comunista que caíu em 1989. Jornalistas, funcionários públicos e professores maiores de idade em 89 são o alvo da campanha de decantação ideológica dos gémeos Kaczynski - Lech, o Presidente, e Jaroslaw, o Primeiro-Ministro.
O Instituo da Memória Nacional cruzará os dados fornecidos por estes 700 mil polacos com os arquivos da antiga policia política, cujos relatórios são tidos por pouco verosímeis, dada a tendência dos agentes secretos do regime para o relato da inverdade.
Aguarda-se ansiosamente, na Polónia e na União Europeia, que o Constitucional polaco trave a legislacao pro-purificação ideológica. Do comunismo ao ultra-conservadorismo, a Polónia é hoje um problema europeu, mas os gemeos Kaczynski amigos dos EUA. Onde a caça às bruxas fez furor, há muitas décadas, ainda a preto e branco...

(Os) Sinais do tempo

Em Fuenlabrada, a sul de Madrid, os sinais luminosos revelam aos peões os tradicionais "homens luminosos", intercalando agora com mulheres luminosas. A dar noticia da sua vez no trânsito, os sinais luminosos de Fuenlabrada associam o peão à celebração da igualdade, depois do Parlamento espanhol ter decidido, em 27 de Fevereiro, que os transexuais podem escolher o seu genero oficial. Verdadeira líder na campanha contra a discriminaçãoo sexual e neo-peregrina europeia na defesa da igualdade, a Espanha rende-se, pelo menos a sul de Madrid, à não discriminaçãoo no (pelo) trânsito...

P.S. Teclado londrino... correcçoes prometidas para o regresso.
P.S. 2. Regressada de londres, voltam os acentos e com eles a normalidade gramatical.

13.3.07

Saúde e mercado

É verdade, temos um mercado de prestação de cuidados de saúde. Com actores privados, cooperativos e socias. A provisão pública de serviços de saúde convive com a prestação dos mesmos pelos dois outros sectores da economia nacional. Constato, apenas. Não me pronuncio, por ora, sobre o primado.

12.3.07

Linhas da blogosfera: crónicas sobre a morte anunciada


José Medeiros Ferreira considerou durante algum tempo a hipótese de Jacques Chirac não desmobilizar, e face à candidatura do enfant terrible Sarkozy, permanecer e reclamar dos franceses novo depósito de confiança nas urnas. Foram estas as linhas que fui lendo em posts que deixou nos últimos meses nos Bichos Carpinteiros.
Quando Chirac anunciou o seu entusiasmo com a causa pública mas em sede distinta do Eliseu, José Medeiros Ferreira escreveu ontem, no seu Adeus a Chirac: «Com Chirac acaba o que ainda havia de gaullismo em França.»
Não esperava de Chirac outra coisa senão a conivência com a despedida que Sarkosy lhe impôs, de acordo com o seu génio, há vários meses. Fosse Chirac levemente português, e perceberia com amargo-fel o sentido do nosso dito popular «o feitiço virou-se contra o feiticeiro». Jacques Chirac reconheceu que o feiticeiro é agora outro, aquele que tomou como disciplino, anos atrás. Vale mil palavaras, a fotografia que Luciano Amaral publica hoje n' O Insurgente, dando-lhe por título «Les copains d’abord». Não resisto a publicá-la, também.
Mas como os franceses tomaram o gosto a presidenciais dinâmicas e nas últimas Jospin viu-se preterido por Le Pen para uma segunda volta com Chirac. Agora, Ségolène parece correr o mesmo risco com a sombra de François Bayrou a pairar nos 23 por cento. Ou será Sarkozy que corre esse risco? Aparentemente, Bayrou, levasse quem levasse à segunda volta, venceria, escrevia ontem Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
Naturalmente, e sem necessidade de registo de interesses, espero que a direita seja vencida nas presidenciais em França. Recupero a pergunta de José Medeiros Ferreira, no post da despedida de Jacques Chirac, e actualizo-a: «na versão pessimista e narcisista do príncipe de Salina, depois dos leopardos virão as hienas e os chacais» - a que espécies pertencerão os três magníficos do momento? E quando é que Bayrou sai, se é que sai, de cena?

10.3.07

Sexy ou de táxi?

Portas regressa em preparação (2.ª etapa) para eventualidades socialistas em 2009, pronto para ocupar, até lá, o lugar da verdadeira e liberal oposição. Curiosamente, Paulo Portas marcou a data de regresso – só a data foi novidade, do regresso já sabiamos – para as vésperas do dia em que o Governo, alegam os comentaristas, deu provas de descrença no mercado, numa intervencionista omissão sobre a OPA à PT.
É difícil encontrar uma perspectiva inexplorada sobre o retorno de Portas. Já tantos reagiram, muito se escreveu, vários disseram o que quiseram dizer, que qualquer análise se prepara para a inópia. Ainda assim, diariamente acontecem há avanços analíticos. Venha mais um.
Paulo Portas sabe que o CDS jaz morto, apenas com intermitentes sinais de vida. Quem vive, ou pode potencialmente viver é o seu PP, criação que ofereceu a Manuel Monteiro em 1992 e que a este retirou por razões que nós sabemos que eles sabem que nós sabemos que eles sabem. O PP de PP elegeu 15 Deputados em 1995, conservou os mesmos mandatos em 1999, e chegou ao Governo de coligação com Barroso em 2002. Com 12 Deputados eleitos em 2005, Portas demite-se, retirando conclusões da derrocada do Governo de aliança com Santana Lopes. Ao longo desta década, não foi o CDS que se manteve numa margem percentual confortável, e menos ainda terá sido um Presidente do CDS a manter-se como o líder da oposição mais popular, ofuscando o PSD. Não. O Partido deste feitos foi o PP, e o seu Senhor Paulo Portas. Só o Santanismo podia provocar nas bases populares um ensejo de regresso às origens Democrata-Cristãs. Mas os revivalismos passam de moda, e Portas é um líder fashion, capaz de dar ao eleitorado o partido sexy anunciado por Pires de Lima num célebre debate mensal com o PM.
PP também sabe que foi com o Partido Socialista que o CDS chegou pela primeira vez ao poder, em 1978. E sabe que o PSD não experimenta uma crise, porque actualmente experimenta muito pouca coisa. Face ao alheamento dos Sociais Democratas da realidade da oposição, Portas esperou. Esperou um pouco mais. Deixou até que os analistas questionassem a existência de verdadeiros partidos de Direita em Portugal, ou indagassem do espaço para uma Direita portuguesa. E, ante a dúvida e a divisão nos dois partidos, não de táxi mas num espalhafatoso automóvel de alta cilindrada, PP está de volta. Paulo Portas, e o PP também. Controverso e populista, já não a contar espingardas, mas a ensaiar a pontaria.

Manchete made in USA

«Bush levou na bagagem papel higiénico para usar no Brasil»
(Diário de Notícias, página 13)

Desconfiado da qualidade do produto do país que, no médio prazo, adivinha-se uma das três novas potências económicas mundiais.

O mercado das éticas privadas

Desde dias recentes, vigora nos Hospitais da CUF um Código de Ética que oferece à «vida humana» – desde a sua origem no zigoto... nunca nos entenderemos quanto ao início das coisas – um valor absoluto e inviolável.
Os médicos que exerçam naqueles Hospitais estão proibídos de levar a cabo actos médicos como a procriação medicamente assistida, laqueação de trompas, vasectomias ou a prescrição da pílula do dia seguinte. Assenta este Código, dizem «nos valores da ética personalista».
Ora, para aqueles que encaravam a despenalização da interrupção voluntária da gravidez como forma de mercantilização de uma importantíssima área da saúde pública, com o temido avanço das clínicas privadas e uma hipotética incapacidade do SNS, aqui está o mercado dos hospitais privados a responder a tais temores.
O Presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos considera este Código de Ética um absurdo e um abuso interpretativo das regras do exercício da medicina (a fonte desta novel ética é o Expresso).
Eu pergunto:
1) A todos quantos se bateram pelo Não à questão referendada, alegando a existência de métodos anticoncepcionais eficazes e acessíveis a todos – que dizer desta ética privada?
2) Àqueles que investem, publicitam e quase reclamam a objecção médica de consciência para a realização de interrupções voluntárias da gravidez no cenário despenalizado – deverão os médicos dos Hospitais da CUF alegar uma objecção de consciência sui generis ou «invertida» de modo a poderem, ao menos, dar forma à vida através da procriação médica assistida?
Se foram parcos (...) os fundamentalismos no curso da camapanha do referendo de 11.02, ei-los agora, reactivamente.
Eu sou utente da CUF. Melhor, deixei de ser. Em nome da ética, aquela que embora admita variações, não reconhece variantes temerárias.

Linhas alheias

Leituras de hoje, sobre chegadas e partidas:

Henrique Monteiro: O teatro da política ganha alguma coisa com esta reaparição de Portas como protagonista. Desde logo, o longo monólogo de Sócrates pode ser, de vez em quando, interrompido (...). Mas, para que ele brilhe, alguém tem de se ofuscar - Ribeiro e Castro só não chega; Marques Mendes vai ter (ainda) menos palco. (Portas, Sócrates e a Convicção, Expresso).

Marina Costa Lobo: Tony Blair conseguiu aprofundar dimensões qualitativas da democracia inglesa, sem nunca pôr em causa a prosperidade económica. Será este legado de alguma forma inferior a um legado na política económica ou na política externa? Não. Nos países mais ricos da UE, onde o crescimento do PIB e a estabilidade macroeconómica são uma questão menos premente do que em países mais pobres, a qualidade da democracia e o papel do cidadão nas instituições tornaram-se questões cruciais para o bem-estar no século XXI. (O legaldo de Tony Blair, Diário de Notícias)

De regresso.

6.3.07

4.3.07

No Reino da Dinamarca

...Já dizia Alexandre O'Neill, o Tempo Faz Caretas: Visto que não há regresso E o tempo está de mau cariz , Viremos o dia do avesso Para ver como é, primeiro. A caranca de um velho ou o traseiro Prazenteiro dum petiz?

Um assunto que já foi Frágil...


... e ainda bem que, desde 11 de Fevereiro, passou a ser menos.
A caminho da robustez.

3.3.07

Momento de imprevisão para o fim-de-semana

Se a ordenação social é a racionalidade dos fins, a limitação das possibilidades dos indivíduos é óbvia. Em busca de momentos de imprevisão na vida quotidiana, no modo funcionário de viver, os surrealistas procuravam e criaram momentos de fuga à racionalidade dos fins. Se Baudelaire sonhava mudar os fins, Breton e a sua poesia surrealista procuraram contorná-los, vêm bater contra o vidro.
Parte da sua formação cristalina, dura e monocromática, um poema de 1948, uma imprevisão para estes dois dias:

Como o mundo é belo
A Grécia nunca existiu

Não passarão
O meu cavala acha a ração na cratera
Homens-pássaros remadores arqueados
Voaram-me em volta da cabeça porque
Também sou eu
Quem lá está
Atolado a três quartos
A troçar dos etnólogos
Na amena noite do Sul

Não passarão
A planura não tem fim
Quem se destaca é risível
As altas imagens caíram


(Rano Raraku)

Os aniversários da semana


Esta semana fizeram anos o Blasfémias, o Kontratempos e O Insugente.
Muitos parabéns a todos quantos ali deixam a sua escrita diária, e em especial ao CAA, à Helena Matos, ao Tiago Barbosa Ribeiro e ao Adolfo Mesquita Nunes. Que continuem!

2.3.07

1.3.07

A fatal atracção

A convite da Fernanda Câncio, escrevi para o Cinco Dias um texto de 2.ª feira, a Magnífica Reitora. Através de um episódio – a nomeação de Drew Gilpin Faus, a Magnífica Reitora de Harvard – utilizei a novidade do acontecimento e as circunstâncias actuais de um conjunto de personalidades femininas – que se localizam no núcleo do poder por excelência: a política – para questionar a relevância dos novos rostos femininos nos Estados Unidos, da Senhora Royal em França num eixo franco-germânico com Angela Merkel, para a condição feminina no mundo que (já não) se diz dos homens.
Depressa cheguei ao ponto, e por acaso pela pena de Stuart Mill e o seu "A Sujeição das Mulheres": a “regra da supremacia” vigora ainda, na prática, e como tal continua a ser “um dos principais obstáculos ao desenvolvimento humano”. Com a agravante, a que Mill já não assistiu, de já termos experimentado sistemas de menor sujeição, maior participação, e consequente, mas relativa, “maximização do bem-estar social e da felicidade”. As citações são, aqui, de Stuart Mill, que na sua época e neste estrito contexto, era o pensador da excepção. E que era, também, contrário à ideia de poder, é certo. Talvez por isso mesmo, tenha condenado a ideia de submissão da mulher ao homem, a proibição do divórcio baseado numa pura diferença de génios, via no casamento uma parceria, criticava a ausência de reconhecimento de autonomia e direitos financeiros ao género feminino. A defesa deste argumentário por um liberal e utilitarista do século XIX é, concedo, contra-o-poder.
A Magnífica Reitora – não a Senhora Professora de História, que inicie magnificamente o seu mandato em 1 de Julho, deixemos a Professora Faus – conduziu o debate para dois rumos, seguidos e perseguidos numa extensa caixa de comentários:
1) São as mulheres que se colocam na posição de espectadoras – seja de blogues, seja da política, de comentar, exteriorizar análises – e se sujeitam a uma dada condição feminina? Ou seja, concedem e não enfretam “A Sujeição das Mulheres”, já criticada no século XIX por Mill?
2) A conversa passou, e parou, inevitavelmente, nas quotas e na conjugação deste método de pedagogia anti-inércia feminina e anti-obstáculo masculino, com a questão das preferências de cada género, mas sobretudo de cada indivíduo. E destaca-se, por provocação de um comentador, a dúvida: o poder atrairá mais os homens? Só posso admitir que o poder seja sobretudo sedutor ao Homem, e menos à Mulher, se a razão pura for a vaidade. Se colocármos o apego masculino à poderosa sensação de controlo (quase) absoluto no plano da vaidade, tão só.
O poder será sempre vaidade, e a política – e a academia, e outras instituições, palcos, foruns – trará sempre poder. Mas estará sempre presente, também, uma causa. Artificial, natural, que comande a acção total ou parcialmente. Comissão ou omissão, premeditadamente. Mudar pouco ou provocar revoluções. O poder será sempre vaidade, e a política trará sempre poder. Mas a atracção pelo poder faz-se combinada de vaidade e causa(s). A intensidade dessa atracção resultará diferente em cada indivíduo, nas suas circunstâncias.
Repito, apenas aceito a ideia de que o poder atrai mais os homens, baseada que seja esta afirmação na vaidade pura. Ponto final. E aceito que a atracção feminina por esferas de poder seja menor – ou menos visível – porque “A Sujeição das Mulheres” foi o sistema secularmente vigente, e porque não só as mulheres condicionam as suas preferências, conscientemente, àquilo que consideram possibilidades, como, quando preferem, enfrentam uma desigualdade inicial no percurso, face ao homem.
A responsabilidade? Do sistema, da mentalidade social comum – do que foi, é, vai sendo e, parece, continuará a ser –, da reacção dos actores e das indicações do realizador. Só vê este filme quem manifesta preferência. Diversidade preferêncial existirá sempre, e as motivações individuais são variáveis.
Vejo-me a convocar outra vez Stuart Mill, que nem é especial referência na matéria, mas que se opunha, nos domínios da psique, à visão mecanisista, da mente passiva, reactiva a estímulos externos. As quotas são necessárias, úteis, um estímulo externo mas que se pretende paralelo à revelação de preferências femininas pelo supremo cálice do poder. Mill defendia uma mente activa na associação de ideias. A acção mista, sem inércia ou obstáculo dos géneros, impede a edição futura de “A Sujeição dos Homens”, por um qualquer descendente do filósofo-economista. Enfim, igualdade distributiva de direitos e responsabilidades, pressupondo a tentativa de maximizar a possibilidade de participar, pegando na deixa de um outro comentador. Para começarmos a ver outras fotografias!

P.S. A compreensão de "A fatal atracção" reclama mesmo a leitura da "Magnífica Reitora".