
Gordon Brown apresentou ontem o seu 11.º e derradeiro orçamento, na Câmara dos Comuns. Um-zero, no despique Brow-Cameron.
Com toda uma encenação preparada pelos Tories – lá fora dezenas de improvisados «Gordon Brown’s» protestavam contra os «impostos escondidos» no orçamento (stealth tax) – o chancellor foi discursando, anunciando um orçamento neutro (a receita esperada é tanta quanto a despesa programada); a previsão de crescimento entre os 2,5 e os 3% para 2008; o aumento dos impostos sobre os veículos poluentes (que quase duplicam) e sobre o tabaco (11 pences por maço, mas IVA mais baixo nos programas de combate ao vício da nicotína) e algum alcóol – os «impostos sobre o pecado». E quando David Cameron já se recostava no seu assento verde – é impressionante como, na saga ecológica dos dois candidatos a Downing Street em 2010, tudo no Reino de Sua Majestade parece, de repente, verde – Brown anúncia uma redução de dois pontos percentuais na taxa base do imposto sobre o rendimento pessoal (o income tax britânico). Quase no final dos 47 minutos discursivos de Brown, Cameron jáz, surpreendido, K.O. Segue-se o mesmo anúncio para o imposto sobre o rendimento colectivo (o corporate tax), com a principal taxa do imposto a descer de 30 para 28%. Ainda ecoavam as palmas da assistência Trabalhista, esfuziantes com o desfecho do combate – e, raridade, Gordon Brown sorria – quando o chancellor anunciava, abafado pela euforia dos MP’s do New Labour, a diminuição do investimento público: 2%, de 2008 a 2010 – o pé de aquiles deste orçamento.
Os Tories ensaiaram, ainda espantados, uma reacção, que não ficou sem resposta: sim, a carga fiscal mantém-se, em geral, no mesmo nível; mas com uma deslocação do peso da tributação do rendimento pessoal para a tributação «verde».
Depois da maratona ambientalista da semana passada – sem vencedor na minha perspectiva, embora se diga que Cameron marcou pontos (interrogo-me como... a sugestão de tributar a utilização de transportes aéreos é ecologicamente anedótica, e o próprio Cameron foi «apanhado» a preferir o avião ao automóvel numa deslocação de meras 97 milhas...) – e quando os Tories reclamavam ruidosamente uma redução de impostos, que pelos vistos achavam impossível ou improvável, Brown, não abandonando o cinzentismo, contra-ataca e vence pela surpresa.
Julgo que o estilo será sempre o mesmo, e sempre cinzento, mesmo ante o esverdear do discurso. Num país que já aclamou o mesmo (colorido) Blair que agora repudia, o maior problema do chancellor é mesmo ser Trabalhista e o bem sucedido Ministro das Finanças da terceira via Blairista. Talvez em 2010 os eleitores se lembrem que Brown esperou uma longa década para ocupar o lugar que, inicialmente, lhe estava destinado. E se precisarem de argumentos, folhear o último livro do «pai ideológico» do New Labour, Anthony Giddens, «Over to You Mr. Brown», pode ajudar – receita-se descentralização de poderes como objectivo, onde Blair terá falhado. De resto, Gordon Brown deverá empenhar-se em garantir os bons resultados da (sua) economia e manter-se fiél à luta pela salvaguarda das utilities and public services – já anunciou, aliás, o seu enamoramento pela educação, patente neste orçamento.
Por agora, Gordon Brown virou o jogo e fez da sua arma de eleição – o orçamento – um instrumento de afirmação política pura. David Cameron will be back.... mas, arrisco, mais prudente e sem multidões mascaradas (vide páginas centrais do Público).
Registo de interesses – embora considere desnecessário, aqui fica: fosse eu cidadã do Reino Unido, e em 3 de Junho de 2010 votaria New Labour.




