
Na manhã de sábado passado estive as três primeiras horas do (meu) dia no Fim-de-semana, programa da RCP com o Luís Osório e com o Nuno Costa Santos (que lançou ontem os seus Aforismos de Pastelaria). Foram meus parceiros de conversa o Pedro Marques Lopes e Elísio Summavielle, o presidente do IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico). A manhã deslizou e falou-se, inevitavelmente, do veto do IPPAR à abertura do túmulo de D. Afonso Henriques.
Seria uma enorme desilusão descobrir que o pai da Nação, afinal, não está sepultado em local de culto histórico, por culpa do malvado ADN. Mas desilusão pior, muito pior, resulta da leitura da entrevista de Elísio Summavielle na Visão de hoje: «ainda não é oficial, mas está a ser instruído um pedido para abrir o túmulo de D. Sebastião, também nos Jerónimos», afirma. Desgraça. Calamidade. El Rei D. Sebastião não havia ficado perdido, na batalha de Alcácer Quibir? Já dizia a canção de José Cid...
Dias depois da eleição de Salazar como O «Grande Português», relembrar ao povo que o mito do sebastianismo foi criação do Senhor Professor é doloroso. Se a Dona Amália já lá vai mas o registo vocal para sempre fica, e o Eusébio ainda anda por aqui, aquele que permite a cada português o exercício mímico de aguardar por um salvador que nunca chega, não pode estar sepultado nos Jerónimos.
A história lembra D. Sebastião como «O Desejado». Dos dez filhos legítimos do seu avô D. João III, apenas o princípe seu pai sobreviveu. E ainda assim por pouco tempo, apenas o suficiente para deixar a sua consorte de esperanças e Portugal expectante. Sobre a coroa pairava o perigo de Espanha.
Os portugueses recordam D. Sebastião como um desejado salvador. É certo que a sua saúde era precária, não ouvia conselhos, interessava-se com fervor apenas pela religião e com garra pela guerra, anacronicamente queria salvar os mouros e conduzi-los à redenção. E pouco mais. Mas estes são pormenores que guardamos em nota de rodapé.
Desde 4 de Agosto de 1578 reina sobre Portugal o desejo do regresso do herói nacional. O nosso décimo sexto rei, que pouco mais vez do que arruinar os cofres do reino contraindo empréstimos para concretizar a sua obsessão - trazer à soberania lusa os berbéres da Palestina - marcou-nos de tal forma que ainda hoje esperamos por um D. Sebastião que nos salve. A multiplicidade de candidatos é patente, alguns apenas saídos do nevoeiro do imaginário próprio, outros efectivos mas pouco assumidos, alguns ainda adormecidos. Mas à salvação da Pátria Mãe, como El Rei, de pouco valem.
Por isso, não é possível. Se já custa admitir que o sebastianismo jaz nos Jerónimos, abrir-lhe o túmulo seria deixar o povo português orfão desta esperança vã mas intemporal. A menos que o ADN revele que, sem sombra de dúvidas, El Rei nunca voltou do nevoeiro e Salazar não nos escondeu nada e é, então, O «Grande Português».









