O almoço entre o líder partidário e o líder parlamentar parece não ter aguçado a criatividade de Pedro Santana Lopes, já tão pouco - ou nada - visível no debate de ontem. Na discussão na generalidade, há um par de horas, a ideia forte de Santana Lopes limitou-se a esta «sugestão»:
Ficava bem a este Governo aceitar a sugestão de pedir ao Banco de Portugal que faça com este Orçamento de Estado para 2008 o mesmo exercício que fez em 2005.
Com muita pertinência e síntese, escrevia Octávio Ribeiro, no Correio da Manhã de ontem:
Pouco mais de dois anos e meio depois de sofrer a maior derrota eleitoral de sempre, como está o centro-direita em Portugal?
A julgar pela imagem que hoje teremos do Parlamento, afinal o Governo mais errático de que há memória nas décadas de democracia consolidada não passou de um pesadelo. Santana Lopes nunca foi primeiro-ministro? Paulo Portas jamais se prestou ao papel do parceiro de coligação com pose de Estado?
E, de repente, breves 31 meses depois, ali estão, no hemiciclo, Santana Lopes e Paulo Portas, líderes parlamentar e partidário, respectivamente. Este inverosímil facto é um desastre para o centro-direita e para quaisquer aspirações à reconquista do poder a um José Sócrates, socialista mas pouco.
Não é possível, por mais corrosiva que seja a voragem dos dias nos mecanismos da memória, que os cidadãos não reajam no mínimo com um sorriso a esta incapacidade de renovação na área política que reivindica como sua a capacidade reformista (…).
Contra o dia burocrático e o modo funcionário de viver
7.11.07
5.11.07
E Menezes faz de conta que não percebe?
Pois, vai fazendo. Nada a fazer, aliás. Este inédito regresso ao passado, reeditando-se a bicéfala direita de Santana Lopes e Paulo Portas, a novidade bicéfala na liderança do PSD, os ajustes (de contas) de PSL... uma apocalíptica viagem na máquina do tempo. Quase tão apocalíptica como o Sol colocar Santana Lopes solitariamente à sombra:
Não bastavam os inéditos saneamentos de barrosistas nas comissões parlamentares e as dívidas, pagamentos indevidos e multidões de assessores que deixou atrás de si na sua passagem pela Câmara de Lisboa. Agora, para vincar que não é apenas um «n.º 2», até tratou de se fazer substituir nas reuniões da direcção do PSD por... Pedro Pinto! Um precedente insólito. E Menezes faz de conta que não percebe?
Sol, 2007.11.03
Não bastavam os inéditos saneamentos de barrosistas nas comissões parlamentares e as dívidas, pagamentos indevidos e multidões de assessores que deixou atrás de si na sua passagem pela Câmara de Lisboa. Agora, para vincar que não é apenas um «n.º 2», até tratou de se fazer substituir nas reuniões da direcção do PSD por... Pedro Pinto! Um precedente insólito. E Menezes faz de conta que não percebe?
Sol, 2007.11.03
Kitsch e pontapés na História


Escreve Eurico de Barros, no DN de ontem, sobre uma estória sem história ou História: O segundo filme da trilogia de Shekhar Kapur sobre a figura e o reinado de Isabel I, interpretada por Cate Blanchett, agrava seriamente o caso do original, Elizabeth (1998). Kapur filma a era isabelina como se estivesse a cruzar um filme de Bollywood com um derivado de O Senhor dos Anéis, carrega no Kitsch e dá mais pontapés na História do que os avançados do Benfica na bola no decorrer de um jogo.
Valha-nos a Cate Blanchett e o Rui Costa.
25.10.07
Georeferenciação

Hoje é apresentado «Rio das Flores», romance histórico de Miguel Sousa Tavares. A leitura das 640 páginas da nova obra do jornalista, permitirá perceber que países é que MST «conhece», por estes dias. Numa espécie de prelúdio ao lançamento, MST dedicou uma parte da sua coluna no Expresso a antecipar a crítica de Vasco Pulido Valente. Haverá melhor promoção para o novel escrito do que a troca de galhardetes que se seguiu?
A prova de que Sousa Tavares é já um escritor, encontro-a na deliciosa ideia de que a VPV será actualmente desconhecido outro universo que não seja o limitado binómio dos «países» Oxford e Gambrinus. É criativo e mordaz. Mas injusto. Conteúdos à parte, a escrita mordaz é território por excelência – ou de excelência? – de Pulido Valente. MST tem, a dado momento, razão: VPV escreve maravilhosamente.
Mas Sousa Tavares também não anda mal: para além dos largos milhares de livros que vem vendendo – contribuindo amplamente para a literacia lusa, e para uma literacia com um certo patamar qualitativo –, é justo dizer que é, já há algum tempo, um escritor. Eu preferia-o jornalista, mordaz director da finada Grande Reportagem, por exemplo. E assiste-me uma curiosidade: se em tempos idos, MST terá dito que exerceria o Direito enquanto o jornalismo não lhe desse a compensação financeira suficiente para abandonar o universo jurídico, qual foi o mote para deixar o «país do jornalismo» pela escrita literária? Este destino, de férias ou para fixação de residência permanente, não foi mal escolhido.
24.10.07
Os Beatles da Reboleira


Ontem comemorou-se o lançamento do livro «As lendas do Quarteto 1111», do jornalista António Pires, com um pequeno concerto dos próprios no Musicbox. Apercebi-me de que gosto do José Cid. E já há muitos anos, desde a infância. E que, afinal, não é piroso, pimba, cultural e intelectualmente impronunciável, esta afirmação.
«A lenda de El-Rei D. Sebastião» faz parte das minhas memórias infanto-sonoras – não sei bem porquê, afinal a música é de 1967 e recordo-em que a ouvia essencialmente na televisão. Mas sempre achei que o José Cid era a síncrise do bom cantor. E as suas músicas antítese da boa música.
Há uns tempos descobri que vivemos uma época de revisitação musical, de reencontro de fenómenos que dizemos kitsch, porque de facto a vida é uma permanente reciclagem e já Lavoisier dizia que «nada se cria, tudo se transforma, nada se perde». A matéria conserva-se. E, nestes tempos de recontros, gostar de José Cid não fica mal. Nem cantarolar os acordes medievos d’«A Lenda Del-Rei D. Sebastião».
Acontece que em 1967, Portugal apenas conhecia (um) pouco do que se criava lá fora, e o nacional cançonetismo lustiano, com as Madalenas Iglésias, marcava a pauta. Sucede que em 1971, o Quarteto 1111 foi tocar a «Ode to the Beatles» em Vilar de Moura; em 72 componham música de intervenção; em 2005 a editora World Psychedelia colocava no escaparate uma edição coreana de 15 temas do Quarteto (músicas de 1967 a 1972); e em 2007 eles estão muito bem, obrigado, a «reeditar» a tal música que cantarolo desde muito miúda e de cujos acordes ocasionalmente me recordo, desta feita em versão acústica, com o teclado de Cid mas muita guitarra e baixo à mistura.
Como dizia ontem, no Musicbox, o vocalista dos auto-intitulados «Beatles da Reboleira», isto que eles faziam na década de sessenta era muito diferente do que acontecia por cá: «sex, drugs and rock’n’roll: a primeira uma vez por semana, a segunda… e a terceira vejo os outros fazerem». A ler, no reencontro.
23.10.07
Não é nada uma «caça às bruxas», e o Halloween


O novo líder parlamentar do PSD retirou Arnaut e Relvas da presidência das Comissões Parlamentares de Negócios Estrangeiros e Obras Públicas, respectivamente. Numa bancada de santanistas e num partido menezista, não há lugar a barrosistas.
Sem unidade ou união no partido - opina Manuela Ferreira Leite -, «caça às bruxas», denuncia Matos Correia.
Mas não... é simplesmente a próximidade da noite de 31 de Outubro.
17.10.07
15.10.07
Instantâneos digitais de Torres Vedras III: Quiz do Congresso Nacional
Quiz do Congresso Nacional: onde está o acordo institucional que Santana Lopes diz ter celebrado com Luís Filipe Menezes? O líder declarou que «ficaria muito feliz se me desse (PSL) esse acordo a ler». Ante a afirmação da possibilidade de atingir um estado de manifesta felicidade, os delegados apressaram-se a procurar por todos os cantos do multiusos de Torres Vedras. Até ao final do conclave, não houve notícia da aparição.
Instantâneos digitais de Torres Vedras II: o blogger-reporter
No DN de Domingo: Pela primeira vez num congresso do PSD, houve blogues acreditados para a cobertura. Rodrigo Moita de Deus, do 31 da Armada, acompanhou tudo a par e passo, com emissões em directo (com câmara de filmar) e de microfone na mão. O mesmo Rodrigo que há umas semanas esteve como orador na Universidade de Verão do PSD. O mesmo que em Pombal surgiu ao lado de António Borges. Rodrigo não perde um congresso (...).
Instantâneos digitais de Torres Vedras I: duas estrelas Michelin à receita da social-democracia de Menezes para a direcção nacional de sucesso
E o segredo é tão simples! Basta reunir na direcção nacional representativa de toda a história do partido, homenageando assim esse condimento essencial ao gourmet politico. A base é a fundação, e Luís Fontoura representa os idos tempos de Sá Carneiro. Junta-se Ângelo Correira, pelo governo de Francisco Pinto Balsemão. Uma colher bem cheia de cavaquismo – o antigo e o actual, com Arlindo de Carvalho, Couto dos Santos e Duarte Lima pelo antigamente e José Manuel Canavarro pela actualidade. Uma pitada de Barrosismo – Feliciano Barreiras Duarte –, outra de santanismo – Rui Gomes da Silva. Além dos condimentos regionais, para obter aquele gosto especial, é conveniente tirar da manga um militante «exótico». Zita Seabra, que já experimentara o Comité Central do PCP, serve o propósito. E depois de todo este esforço, a terceira estrela Michelin escapa ao afoito novel líder do PSD. A cereja no topo do bolo é o toque final. Que só Manuela Ferreira Leite, querendo, poderia representar. Mas não quis.
A ModaLisboa/Estoril, que na verdade acontece em Cascais, por dois pares de olhos distintos
Durante os dias em que a Moda Lisboa decorre, há larica, mas champanhe – o que é bom, porque «bate» mais depressa (...) Esta malta vive três ou quatro dias de deslumbramento e depois volta para casa já sem saber se está mal da ressaca ou do vazio de tanto irreal social. Há os que querendo parecer realmente importantes se sentam nas filas dianteiras da passerelle e depois, atónitos perante o reparo da relações-públicas perguntam: «Mas você sabe quem sou?» Às vezes não se sabe, outras vezes sabe-se mas a criatura não é suficientemente conhecida para estar ali...
Inês Meneses
Notícias Magazine, 14.10.2007
Benedetta Barzini é uma maquina, substantivo singular feminino, serena, de fazer perguntas. Uma máquina-modelo italiana, professora de Sociologia e Cultura da Moda na Faculdade de Arquitectura de Milão e que falou sexta-feira na Faculdade de Arquitectura de Lisboa sobre roupa, sociedade e moda. Falou e depois foi assistir aos desfiles da ModaLisboa em Cascais (...) Na Cidadela de Cascais, durante a ModaLisboa, Benedetta Barzini desliza por entre a multidão, descontraída, desassombrada (...) Como se o ar colectivo já não estivesse carregado de preocupações, quer lançar nele mais perguntas. “As roupas nunca mentem sobre a sociedade em que estamos”. “Por que é que devo ser escrava de uma marca, porque devo contar ser respeitada por usar um fato Armani? Penso que um fato Armani deve estar ao meu serviço e não o contrário”.
Joana Amaral Cardoso
P2, 14.10.2007
Inês Meneses
Notícias Magazine, 14.10.2007
Benedetta Barzini é uma maquina, substantivo singular feminino, serena, de fazer perguntas. Uma máquina-modelo italiana, professora de Sociologia e Cultura da Moda na Faculdade de Arquitectura de Milão e que falou sexta-feira na Faculdade de Arquitectura de Lisboa sobre roupa, sociedade e moda. Falou e depois foi assistir aos desfiles da ModaLisboa em Cascais (...) Na Cidadela de Cascais, durante a ModaLisboa, Benedetta Barzini desliza por entre a multidão, descontraída, desassombrada (...) Como se o ar colectivo já não estivesse carregado de preocupações, quer lançar nele mais perguntas. “As roupas nunca mentem sobre a sociedade em que estamos”. “Por que é que devo ser escrava de uma marca, porque devo contar ser respeitada por usar um fato Armani? Penso que um fato Armani deve estar ao meu serviço e não o contrário”.
Joana Amaral Cardoso
P2, 14.10.2007
9.10.07
As setas mágicas
Na edição de hoje, o Jornal de Negócios coloca António Costa com uma seta para baixo, em virtude das conclusões do estudo da consultora imobiliária Cushman & Wakefield, que o JN publica, revelarem que Lisboa é uma cidade com escassos motivos de atracção.
Ora, é de uma tremenda injustiça colocar o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa em sentido descendente no «Elevador» do JN, quando se coloca nesse sentido alguém que tomou posse em 1 de Agosto – já lá vão... dois meses e nove dias?
Não é novidade alguma que eu apoiei a candidatura de António Costa, e continuo a apoiar, agora a sua presidência. Sendo também verdade que o próprio JN remata o comentário que acompanha a mágica seta com a afirmação: «Seria injusto responsabilizar o actual presidente da Câmara pela imagem modesta da cidade, mas fica o registo de problemas a ultrapassar para colocar Lisboa no mapa dos negócios».
Injusto, injusto, mas a seta está lá. E como «quem não se sente, não é filho de boa gente», fica o arejo.
Ora, é de uma tremenda injustiça colocar o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa em sentido descendente no «Elevador» do JN, quando se coloca nesse sentido alguém que tomou posse em 1 de Agosto – já lá vão... dois meses e nove dias?
Não é novidade alguma que eu apoiei a candidatura de António Costa, e continuo a apoiar, agora a sua presidência. Sendo também verdade que o próprio JN remata o comentário que acompanha a mágica seta com a afirmação: «Seria injusto responsabilizar o actual presidente da Câmara pela imagem modesta da cidade, mas fica o registo de problemas a ultrapassar para colocar Lisboa no mapa dos negócios».
Injusto, injusto, mas a seta está lá. E como «quem não se sente, não é filho de boa gente», fica o arejo.
8.10.07
Gémeos II

Não, não é a sequela do filme do início dos anos noventa, com a improvável dupla de gémeos Danny DeVito/ Arnold Schwarzenegger. É tão-somente a reedição do governo ultra-conservador dos gémeos Kaczynski, nas legislativas antecipadas na Polónia, como notícia a Lusa. E começa a semana com este panorama na cena internacional… Não há Tratado que resista ou exista…
(Cartoon de Rainer Hachfeld)
Polónia/Eleições
Sondagens dão vitória aos gémeos Kaczynski a 13 dias das legislativas antecipadas
2007-10-08, 12h41
Varsóvia, 08 Out (Lusa) - O partido Lei e Justiça (PiS) dos gémeos Kaczynski ganhará as eleições legislativas de 21 de Outubro na Polónia, ao obter mais cinco pontos percentuais que os liberais da Plataforma Cívica, indicam hoje as últimas sondagens.
A apenas 13 dias da realização das eleições antecipadas na Polónia, tudo indica que os ultra-conservadores, liderados pelo Presidente Lech Kaczynski e pelo primeiro-ministro Jaroslaw Kaczynski, repetirão a vitória e voltarão a governar, de acordo com a última sondagem, hoje publicada pelo instituto PBS-DGA.
Segundo esta sondagem, o partido Lei e Justiça obterá 37 por cento dos votos, enquanto o rival directo, o Plataforma Cívica não deverá ultrapassar 32 por cento, ou seja, menos cinco pontos percentuais.
Esta sondagem é a que até agora dá maior vantagem ao partido dos irmãos Kaczynski, que nas sondagens das últimas semanas aparecia praticamente empatado com os liberais.
A sondagem indica que o terceiro partido mais votado nas legislativas será a formação do ex-presidente Aleksander Kwasniewski, Esquerda e Democracia, que obterá 16 por cento dos votos, convertendo-se na força política decisiva para fechar acordos pós-eleitorais, já que não se prevê que qualquer partido obtenha a maioria absoluta.
O partido ultra-católico Liga das Famílias Polacas (LPR) deverá, de acordo com esta sondagem, ficar fora do Parlamento, ao obter apenas três por cento votos, percentagem aquém do mínimo, de cinco pontos percentuais, necessários para aceder, refere a sondagem.
Por outro lado, a sondagem refere ainda que o Partido Camponês e os radicais populistas do Autodefesa deverão conseguir obter cinco por cento dos votos cada um.
3.10.07
2.10.07
Preocupações cromáticas

Recebi este e-mail, do Terra do Sol, e não resisti a publicá-lo! Aqui vai:
«ALERTA LARANJA!
De acordo com a previsão do Instituto de Meteorologia, o território de Portugal Continental está a sofrer a influência da passagem de uma superfície frontal que irá provocar episódios de forte instabilidade nos distritos de Setúbal, Évora, Beja e Faro...»
1.10.07
«Abortos voluntários nos hospitais são metade das estimativas»
Os profetas da desgraça tiveram um despertar amargo. A leitura matinal do Público anuncia em letras garrafais de manchete em quase meia página, o balanço do óbvio: a alteração do Código Penal em matéria de interrupção voluntária da gravidez, na sequência do referendo de Fevereiro, não trouxe um abortion boom. As previsões do coordenador do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva parecem ficar-se pela metade do inicialmente estimado.
Dando os números às coisas, e a verdade dos factos aos argumentos, o acréscimo de liberdade não revelou irresponsabilidade. Aguardo ansiosamente, em cenas dos próximos capítulos, a estatística comparativa dos ganhos preventivos e efectivos de saúde pública.
Dando os números às coisas, e a verdade dos factos aos argumentos, o acréscimo de liberdade não revelou irresponsabilidade. Aguardo ansiosamente, em cenas dos próximos capítulos, a estatística comparativa dos ganhos preventivos e efectivos de saúde pública.
Não tenho reserva para esta semana...
Às vezes apetece jogar mikado com gressinos, e num Domingo à noite achar que o palato atento saberá comprazer-se com a semana que começa amanhã e que vai ser melhor. Às vezes, sem reserva, apetece achar que a semana vai ser como um arrumado e atraente prato da nouvelle cuisine, ou de perdiz com trufas negras. Os olhos também comem. E o humor também.
Na simplicidade não intelectualizada, no escuro da sala de cinema, quase se consegue cheirar os aromas de uma gastronomia refinada, e antever olfaticamente a chuva, o meio-sol, o papel e a tinta de caneta, o trânsito, as reuniões enfileiradas, as aulas, os e-mail, o feriado. E adivinhar coisas igualmente apetitosas, para que a semana seja assim.
Na simplicidade não intelectualizada, no escuro da sala de cinema, quase se consegue cheirar os aromas de uma gastronomia refinada, e antever olfaticamente a chuva, o meio-sol, o papel e a tinta de caneta, o trânsito, as reuniões enfileiradas, as aulas, os e-mail, o feriado. E adivinhar coisas igualmente apetitosas, para que a semana seja assim.
12.9.07
Surprise, shock, bolt from the blue, by Sir Menzies Campbell
Os liberais democratas anunciam, pela voz do seu líder, Sir Menzies Campbell, entrevistado na edição de hoje do Financial Times, que são contra um referendo ao Tratado Reformador, pela inevitabilidade do não britânico.
Surpresa e choque tomaram de assalto os leitores do diário de referência. Quase o mesmo efeito provocado pelo MNE britânico, David Miliband, quando aproveitou o encontro de Viana do Castelo para oferecer ao demais 26 que não pretendem adoptar o Tratado.
Corrijo-me: «demais 25», pois o governo polaco, liderado pelos geminados arautos da democracia mundial, os Kaczynski, já haviam anunciado que pretendem continuar a promover as «enxaquecas europeias» da União.
Surpresa e choque tomaram de assalto os leitores do diário de referência. Quase o mesmo efeito provocado pelo MNE britânico, David Miliband, quando aproveitou o encontro de Viana do Castelo para oferecer ao demais 26 que não pretendem adoptar o Tratado.
Corrijo-me: «demais 25», pois o governo polaco, liderado pelos geminados arautos da democracia mundial, os Kaczynski, já haviam anunciado que pretendem continuar a promover as «enxaquecas europeias» da União.
2.9.07
«Folheto» ou o post-férias...
Antes de deixar o linha.de.conta ao abandono, novamente, em nome do descanso estival e de umas curtas férias, fica a poesia polaca - e os polacos estão tão necessitados de poesia, face ao sinistro-fantástico do duo que os governa - para aqueles que regressam. O «folheto» (1972), de Wislawa Szymborska, que me foi apresentada há tempos. AMN, voltarei cheia de criatividade e temas, prometo!
Sou o comprimido calmante.
Actuo em casa,
sou eficaz na repartição,
sento-me no exame,
apresento-me em tribunal,
colo minuciosamente a louça partida.
Basta que me tomes,
que me ponhas debaixo da língua,
que me engulas
com um copo de água.
Sei o que fazer na desgraça,
como aguentar a má notícia,
diminuir a injustiça,
desanuviar a falta de Deus,
escolher o chapéu de luto a condizer.
Por que esperas?
Confia na piedade química.
Ainda és jovem,
tens que te governar.
Quem disse que se deve enfrentar a vida?
Entrega-me o teu abismo,
vou aconchegá-lo com o sono,
ser-me-ás grato,
darás a volta por cima.
Vende-me a tua alma.
Não haverá melhor comprador.
Outro diabo já não existe.
Sou o comprimido calmante.
Actuo em casa,
sou eficaz na repartição,
sento-me no exame,
apresento-me em tribunal,
colo minuciosamente a louça partida.
Basta que me tomes,
que me ponhas debaixo da língua,
que me engulas
com um copo de água.
Sei o que fazer na desgraça,
como aguentar a má notícia,
diminuir a injustiça,
desanuviar a falta de Deus,
escolher o chapéu de luto a condizer.
Por que esperas?
Confia na piedade química.
Ainda és jovem,
tens que te governar.
Quem disse que se deve enfrentar a vida?
Entrega-me o teu abismo,
vou aconchegá-lo com o sono,
ser-me-ás grato,
darás a volta por cima.
Vende-me a tua alma.
Não haverá melhor comprador.
Outro diabo já não existe.
27.8.07
O vai-e-vem - EPC, 25.08.2007

Confesso que não era a maior das admiradoras de Eduardo Prado Coelho. Admirava-lhe a escrita, a dinâmica de pensamento. Discordava da opinião e produção muitas vezes. Mas há pessoas que julgamos imunes ao vai-e-vem da vida e ao «escândalo objectivo» da morte. Cheguei ontem de férias e dei com a «silly season» interrompida pela objectividade crua da sujeição de todos às regras desse vai-e-vem. Depois da doença, da retirada lenta e progressiva, EPC morreu. Ao ultraje segue-se o vazio. Mesmo na discordância sinto-lhe – sente-se - a falta, e ainda só lá vão dois dias.
3.7.07
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